MLUIZA VIVÊNCIAS


MAIS UMA DESPEDIDA

 

Nesse fim de semana, uma ilustre montes-clarense deixou essa dimensão. A primeira jornalista- mulher que Montes Claros conheceu... Filha de famílias tradicionais, conhecidas e muito amadas. Famílias importantes na construção da História de nossa cidade: Versiani Veloso dos Anjos. É preciso falar mais? Neta de Antônio dos Anjos, sobrinha dos escritores Cyro dos Anjos e Waldemar dos Anjos. Filha de Dona Joana Versiani Veloso dos Anjos, professora conhecida e respeitada, em tempos de antanho. Partiu Sylvia dos Anjos Corrêa Machado.

Na sua humildade, ela não alardeava a inteligência brilhante, a cultura profunda, a escrita bela e escorreita. E a voz? Os mais velhos tiveram a oportunidade de apreciar a sua  belíssima voz. Morreu discretamente, assim como viveu. Já andava meio morta desde o fatídico dia em que seu único filho partiu. Filho que foi meu grande companheiro. Nunca foi minha sogra porque sempre se portou para comigo como uma mãe amorosa  e uma grande amiga e confidente.

Hoje, eu também me sinto meio morta. A sua ausência dói-me no mais profundo de meu ser. Dói-me a sua ausência, a saudade de sua voz, de seu carinho, de seu perfume. Será que há dor maior que a saudade de quem se ama? Foi mais um pontapé na boca do estômago que a vida me deu. Entretanto, devo confessar o consolo e o conforto de me saber amada por ela. Uma grande mulher que, silenciosamente, num maravilhoso relacionamento de almas afins, foi fazendo de mim a filha que não teve. Porque ela esteve presente em minha vida,  tornei-me mais rica. Cresci espiritualmente com sua sabedoria e seu exemplo.

Mulher de fé profunda, de coragem, de grande bagagem intelectual e completo despojamento material.

O que fazer, agora, com esse vazio? Como viver sem ela, sem meu pai, sem meus companheiros, sem tantos entes queridos que, pouco a pouco, vão partindo? O espaço de cada um estará sempre presente em minh’alma. E lá estarão as feridas que, lentamente, irão cicatrizando, obedecendo às leis da própria vida.

Obrigada, Sylvia querida, por ter me feito crescer tanto como ser humano. Obrigada por seu amor e seu carinho. Você foi um anjo que deixou rastros de luz pelo caminho. Estou certa de que ninguém que a conheceu e conviveu com você deixará de agradecer ao Pai Maior por sua vida tão preciosa.

Vá em paz e, lá do céu onde você estará, porque o mereceu, peça ao Nosso Senhor para pensar a alma doída dessa filha aprendiz da vida.




Escrito por Maria Luiza Silveira Teles às 17h29
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CAMINHO DE VOLTA

 

Estou fazendo fisioterapia na Avenida Ovídio de Abreu. Resolvi, no primeiro dia, ir a pé, bem cedo, aproveitando os ares da manhã, exercitando-me e fazendo um passeio por meu passado.

Cheguei a Montes Claros aos dezesseis anos e a nossa primeira casa era uma chácara, que ficava onde é, hoje, o bairro Santa Rita. Era uma casa enorme, de sete quartos, varanda ampla, ao seu redor, e muitas árvores frutíferas.

Um dos muros laterais dava para o antigo Pátio da Central do Brasil, onde residiam alguns de seus funcionários. E foi ali que eu e meus irmãos fizemos as nossas primeiras amizades.

Na minha ida não chegaria até lá, mas haveria de percorrer grande parte do caminho que fazia, outrora, em minha adolescência.

Graças a Deus conservo, ainda hoje, as primeiras amizades que fiz naquela época, ali: Milene e Miriam Carvalho, filhas de Dona Geralda e o saudoso Seu Teco, o chefe da oficina da Central; Terezinha Santos, Divina Tanure.

Na Ovídio de Abreu, moravam  minhas outras amigas, Lilá e Carmem Teixeira, na casa de sua irmã mais velha, Lindaura, uma “mãezona”, que deixou-nos precocemente, aos trinta e um anos.

Na Barão do Rio Branco, fiz mais duas amigas: Iraci, que já se foi há muito, e Menininha Gonçalves, residente, hoje, no Rio de Janeiro.

Eu descia caminhando para dar aulas de Inglês no velho Instituto Norte Mineiro de Educação, respeitada instituição da época, onde agora está o colégio Indyu; no colégio Imaculada e no Conservatório, em sua primeira casa, na Coronel Prates, esquina com Getúlio Vargas.

Eu e minhas amigas descíamos com nossos sapatos de salto fino e meias de seda para o “footing” da Praça Coronel, os bailes no Clube Montes Claros e as horas-dançantes na boate da Praça de Esportes e no Automóvel Clube. Tinha, também, a missa  na Matriz, que antecedia a nossa ida para a boate.

Todas nós nos arrumávamos com primor, cinturinhas de pilão, sempre marcadas por cintos e os belos vestidos godê, como se vê, atualmente, na novela “Ciranda de Pedra”. Dançávamos felizes ao som dos antigos boleros da banda “Lês Chéries”.

Quando chegávamos na Praça Francisco Sá, tirávamos as flanelinhas das bolsas para acabar com a tonelada de poeira da Ovídio de Abreu, que se acumulava em nossos sapatos. Já na volta, pés cansados, no mesmo ponto, nos livrávamos dos sapatos e seguíamos descalças até em casa. Ali, também, retocávamos a maquiagem, aguardando os olhares ardentes dos rapazes, que nos esperavam para o “footing”.

Mais tarde, passei a morar na rua Dom João Pimenta. Lá namorei e noivei com o pai de minha filha, sentados na varanda, sob os olhares cuidadosos de meus pais. Então, dava aulas no Colégio Tiradentes, logo na esquina, e fazia faculdade no colégio Imaculada.

Embora meu pai sempre tivesse carro, saíamos sempre a pé, pois tudo era muito perto.

Agora, faço o caminho de volta, passeando pelo passado, no período dos meus 16 aos 23 anos.

Saí de onde moro, na Gabriel Passos, subi a Cel. Luiz Pires, atravessei a Coronel Prates e a Afonso Pena e peguei a Dom João Pimenta, repleta de lembranças, saudade, sonhos e fantasmas.

Lá fui eu passeando. Às vezes, dava uma paradinha, com o coração aos pulos, não sei se pela idade ou pela saudade... Por todo lado, via a mocinha de cabelos negros, cheia de vida, sonhos e romantismo, devoradora de livros, ansiosa por conquistar o Saber e o mundo. Aliás, pude perceber que ela ainda não morreu, Continua bem viva dentro do meu coração.

Encontrei, feliz, alguns redutos do passado, que resistem, bravamente, aos rompantes do modernismo. Lá está o Grupo Francisco Sá, a casa de Cirênio Leite, o antigo casarão do Tiradentes, pintado de novo, lindo, lindo. Hoje, uma unidade da PMMG.

Nossa antiga casa continua incólume. Até a varanda, onde eu namorava.

A casa de Dr. Porto e Dona Dolores virou um imenso prédio. O velho consultório de Dr. Mário Ribeiro, na casa de Dona Fininha, transformou-se em um estacionamento.

E lá ia eu subindo, envolvida nas lembranças e buscando as marcas do passado. Onde a casa de João de Deus? Ah, em demolição... E a casa de Alcione? Não a reconheço. A de Geraldo Figueiredo e Elpídio da Rocha transformadas. Diferentes, adaptadas. Ah, mas lá está o Bazar Crisóstomo para a minha alegria!

E a casa de Seymando Sarmento? Virou uma clínica fisioterápica. Já a do intelectual Ataliba Machado continua lá, com um muro escondendo sua deterioração.

Vejam a casa do saudoso e querido Nathércio França, onde viveu Dona Tiburtina, em seus últimos anos! Completamente descaracterizada, assim como a Igreja Presbiteriana. Mas. lá continua o Posto dos irmãos Frota Machado. E a casa do Professor Antõnio Carlos de Souza Lima?  Será aquela velhinha, escondida pelo muro?... A Praça da Estação mudou pouco, embora sem o nosso saudoso trem baiano.

Na Ovídio de Abreu, até à minha Fisioterapia, poucas mudanças. Bem, tem o asfalto novo... Deparei-me, de repente, com a casa de Lindaura, Lilá e Carmem. Pois não é que conserva a varanda e até os degraus onde nós, adolescentes, nos sentávamos para os nossos papos?!... Aí não pude conter as lágrimas.

Cheguei, por fim, ao meu destino, leve e oprimida, ao mesmo tempo A clínica era a mesma onde costumava levar meu pai, já bem idoso, para seu tratamento.

Ao sentar lá dentro, tive a nítida sensação de tê-lo ao meu lado. E as lágrimas se misturaram ao sorriso. A dor à alegria de sentir-me tão viva.

Passo a passo, segui meus próprios rastros, na certeza de que a vida vale a pena, sempre.




Escrito por Maria Luiza Silveira Teles às 17h19
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